Sobre o jornalismo e a opinião
Numa grande sociedade dividida em nações subdividida em províncias, em feudos, em cidades, houve sempre, antes mesmo da imprensa, uma opinião internacional, suscitada de tempos em tempos; abaixo desta, opiniões nacionais, intermitentes também, porém mais freqüentes; e abaixo desta, opiniões regionais e locais mais ou menos contínuas. Eis aí os estratos superpostos do espírito público. Só que a proporção dessas diversas camadas, enquanto importância, enquanto espessura, variou consideravelmente, e é fácil perceber em que sentido. Quanto mais recuamos no passado, mais a opinião local é dominante. Nacionalizar pouco a pouco e inclusive internacionalizar cada vez mais o espírito público, foi essa obra do jornalismo. O jornalismo é uma bomba aspirante-premente de informações que, recebidas de todos os pontos do globo, cada manhã, são, no mesmo dia, propagadas a todos os pontos do globo no que elas têm ou parecem ter de interessante ao jornalista, tendo em vista o objetivo que ele persegue e o partido do qual é a voz. (TARDE, 2005, p. 69).
Não se saberá, não se imaginará jamais até que ponto o jornal transformou, enriqueceu e nivelou ao mesmo tempo, unificou no espaço e diversificou no tempo as conversações dos indivíduos. (...) Basta uma pena para pôr em movimento milhões de línguas. (TARDE, 2005, p. 70).
(...) o monarca de hoje não pode mais ter outra razão de ser do que exprimir essa unidade constituída fora dele pela continuidade de uma opinião nacional consciente de si própria e conformar-se a ela ou curvar-se sem submeter-se a ela. (TARDE, 2005, p. 73).
(...) o livro fazia sentir também a todos os que o liam na mesma língua sua identidade filológica, nele não estavam em jogo questões atuais e simultaneamente apaixonantes para todos. A existência nacional é bem atestada pelas literaturas, mas são os jornais que inflamam a vida nacional, que excitam os movimentos de conjunto dos espíritos e das vontades em suas flutuações grandiosas cotidianas. Ao invés de buscar (...) caráter geral (...) (TARDE, 2005, p. 74).
TARDE, Gabriel. A opinião e as massas. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.










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